Priscila Pereira, Caroline Fagundes e Dago Schelin *
De uma expressão popular surgiu o nome de um projeto que está fazendo a diferença na vida de 10 jovens moradores da Fanny, bairro de Curitiba nos quais os equipamentos sociais de cultura, saúde e lazer não se encontram disponíveis para a comunidade.
Parceria entre o Canal Futura, a TV Lúmen e a Associação Casa da Videira - organização não-governamental cristã que trabalha com projetos nas áreas de desenvolvimento pessoal, comunitário e de formação humana - Nós na tela é uma conseqüência do primeiro projeto de capacitação em produção audiovisual aprovado pela lei Rouanet, o Projeto Cine Cidade, idealizado e conduzido pela profª Drª Cristina Vermelho.
Em 2006, a equipe responsável pelo primeiro projeto, vinculado à PUC do Paraná, coordenado então pela Profª Cristina Vermelho, decidiu ampliar o número de parceiras e realizar um projeto com sustentabilidade de longo prazo, incorporado pela Associação Casa da Videira, com os seguintes objetivos: promover formação integral de jovens, proporcionando formação crítica em mídias e a formação de platéia com senso estético e ético; além de capacitar os jovens atendidos à auto-reflexão e a refletir sobre sua condição de classe.
Para tanto, a formação foi organizada com conteúdos técnicos e teórico-reflexivos a fim de que esses jovens se relacionassem com a sociedade a partir de uma condição de cidadania construída com uma vivência prática.Dezesseis jovens participaram das oficinas, entre eles três do grupo VideoAção, dos municípios de Rio Branco do Sul e Itaperuçu (ligados ao projeto Amigos do futuro, parceria do Futura com o Instituto Votorantim) e três do Colégio Estadual Emílio de Meneses, em Curitiba.
O projeto-piloto, realizado entre setembro de 2006 e fevereiro de 2007, culminou com a produção do curta-metragem de ficção “Casa sinistra”. Alguns dos ex-alunos participam hoje de outro projeto em parceria com o Futura: o Geração Beleza.
Na parceria estabelecida em 2007, o formato sofreu alteração, mas permanecemos fiéis às premissas básicas. O projeto agora conta com três meses de curso, com aulas duas vezes por semana, de 3 horas cada.
Ao longo do curso, os jovens experimentão diferentes linguagens, refletindo idéias e formatos (dramaturgia, documentário, etc.). Ao final do processo, será produzida uma peça televisiva com o tema lançado pela UNICEF este ano, “O mundo que queremos”. Um outro diferencial é o registro de todas as atividades pela TV Lúmen, que deve virar um making of para o Futura.
Um novo ano e, com ele, novas experiências
O projeto Nós na Tela conta com a liderança de Caroline Fagundes (consultora convidada pelo Futura) e Dagoberto Schelin (instrutor da Casa da Videira). Os trabalhos tiveram início com uma oficina realizada em agosto, com a intenção de aproximar os participantes e estimular a formação de uma equipe.
Para tal, foi realizada uma dinâmica em que eles, em grupos, tiveram que construir uma manifestação artística: encenação teatral, poesia, música, cinema... A apresentação do tema ficou por conta da criatividade de cada grupo. Neste mesmo dia, introduziu-se a necessidade do Diário de Bordo, um dos pontos fortes, uma vez que o relato das oficinas está sendo realizado pelos próprios jovens, de forma criativa e sincera ao descrever o que estão vivendo na Casa da Videira.
No segundo encontro, os jovens contaram com a presença de Claudio Oliver, coordenador pedagógico do projeto. A origem do nome “Nós na Tela” foi o tema desta oficina, que teve como produção a retratação das mãos dos participantes em pedras, assim como eram feitas as pinturas rupestres.
Apesar de ser um projeto de formação, o objetivo não é que os jovem incorporem a forma usual de fazer TV, por isso, foi realizada uma “sessão pipoca” com apresentação de interprogramas produzidos pelo Canal Futura em parceria com o Projeto Geração Futura Universidades Parceiras, em 2006, a fim de que tivessem contato com materiais de referências audiovisuais diversas.
A diversidade de temas tratados, como “A beleza das pequenas coisas”, fez com que os jovens enxergassem outras possibilidades. Um dos grandes desafios é vencer a apatia visível em adolescentes e jovens nas grandes cidades. Confrontá-los a outras realidades e mostrar que com apenas um tema é possível ter diferentes interpretações, tem sido um constante exercício neste projeto.
Depois desta etapa, conclui-se a primeira modalidade trabalhada: a produção de videoclipes. No primeiro encontro sobre o tema, foram aplicadas técnicas de vídeo e modelos diferentes de clipes, desde as grandes produções até os mais simples. O grupo foi dividido em dois grupos, onde puderam escolher a música a ser produzida. Escolhida a canção, começou o processo de roteiro, produção, captação de imagens e a etapa de finalização dos vídeos.
O próximo desafio é a realização de documentários, com base na visão dos jovens sobre o bairro onde moram, a Fanny. O projeto, que iniciou suas oficinas com dezesseis jovens, hoje conta com a participação de dez meninos extremamente comprometidos e interessados em aprender sobre o meio audiovisual.
A evasão foi acontecendo à medida que novos desafios foram lançados. Os resultados até aqui são expressivos. O interesse deste grupo pelo projeto é evidente, pois a possibilidade de conhecer e aprender sobre o universo do audiovisual encanta e os faz permanecer no Nós na Tela.
É chegada uma fase onde os relacionamentos estão se estreitando. Um simples olhar já diz muita coisa neste grupo. Aos poucos, cada participante está se descobrindo no audiovisual. O papel dos educadores está cada vez menos de ensino e cada vez mais de facilitação, acompanhando e dando simplesmente o direcionamento para as equipes. O Nós na Tela está realmente valendo à pena e fazendo diferença... E isso é só o começo!
* Priscila Pereira é líder de projetos de Mobilização Comunitária, Caroline Fagundes é consultora do Canal Futura no projeto Nós na Tela e Dago Schelin é instrutor da Casa da Videira no projeto.
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